Silêncio
Aos Cartuxos
Aos Cartuxos
«[…]Mas por sob todo este linguajar – que palavra essencial?
A que saldasse uma angústia. A que respondesse à procura
de uma vida inteira. […] Mesmo Deus retira-se para
além de Deus. A procura intérmina ofegante. Silêncio.»
Vergílio Ferreira, Para Sempre
Falar sobre o silêncio é já, de algum modo, quebrá-lo, pelo menos através da palavra dita ou escrita, ou seja, através da linguagem ou linguagens. Mas será que o silêncio significa a ausência de som? Significa o silêncio a não-verbalização? Será que o silêncio começa onde acaba o discurso dito ou escrito? Sim e não. Do ponto de vista físico, certamente que sim. Quando nos calamos ou quando não escrevemos, fazemos “silêncio”. Podemos falar de uma cessão do ruído. Mas será que fazemos silêncio de facto? Existe um silêncio absoluto? Pode o silêncio ser silenciado?
O silêncio não é absoluto. Não há silêncio absoluto. O silêncio é uma posição. Consiste numa posição de escuta e não corresponde à anulação total da linguagem, enquanto esta é possibilidade do próprio pensamento. Coisas pensadas são coisas ditas, postas em linguagem. Não podemos pensar o que não se pode dizer, o que não podemos nomear. Nomear é conhecer. Dizer é criar. A palavra é criadora e instauradora da realidade. Não significa isto que não exista uma realidade que supera a linguagem, que supera mesmo a possibilidade de a dizer, pelo menos, na sua totalidade.
A cessação da palavra na procura do silêncio absoluto corresponde ao início do niilismo. A palavra escrita, dita ou pensada só admite o mistério, enquanto nele se pode falar. Não admite o nada enquanto este significa um posicionamentos existencial niilista.
O silêncio não é uma atitude solipsista. Enquanto escuta o silêncio abre-se a uma alteridade. O silêncio – enquanto tomada de posição num diálogo vivo – é escuta. Se é escuta, é escuta de alguma coisa que nos é dita e se existe alguma coisa dita, é dita por alguém. Neste sentido, o silêncio é escuta dialogante – supõe interrogações, supõe respostas, supõe diálogo com uma alteridade. Supõe relação.
O silêncio considerado como um voltar-se sobre si mesmo, conduz primeiro à consciencialização que sou habitado por uma presença, que me faz descobrir o que sou e ao mesmo tempo potencia o que sou. O silêncio é, por isso, um posicionar-se diante de uma presença, ao mesmo tempo que supõe uma linguagem do pensamento, que é atitude de escuta e de abertura fundamental ao diálogo com a alteridade sem anulação do mistério. O silêncio consiste, quando não cai no vício de um solipsismo niilista, numa diálogo interior com um Outro que me habita. No entanto, em última instância o silêncio supõe o abandono de um tipo de linguagem – daquela que está estruturada e fechada em conceitos, em linguagens fixas e fixistas – para dar lugar à espontaneidade, entendida como posição de escuta que é abertura e possibilidade do espanto. Supõe um estarmos “nus”. Não há silêncio absoluto – existe um silêncio dialogante que é uma forma de linguagem.
Dito de forma simples, o silêncio consiste em posicionar-se num diálogo que consiste primeiramente na atitude de escuta – de alguma coisa que vem ao encontro do que sou – e em seguida numa resposta positiva (ou não) ao que escutei. O silêncio consiste num ‘aqui estou’. O silêncio, mais uma vez, não pode ser silenciado. O silêncio é “ruído” interior – palavra escutada e palavra dita. O silêncio é a relação e posição dialogal entre um ‘eu’ e um ‘Outro’.
Luís Marques (deixa o teu comentário)
1 comentário:
Um gesto pelo Darfur? Não custa nada!
Vá ao jovensemissao.blospot.com e confira no post sair do silêncio.
Informe, divulgue e sensibilize sff.
Não custa nada e pode fazer bem a muitos.
Abraço
leonel
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